Sabará recebe “Expedição pelo Velhas 2009”
Quando visitou a cidade, em 2003, no início da primeira expedição pelo Velhas, a equipe do projeto Manuelzão encontrou o rio, que é um dos principais afluentes do São Francisco, em estado avançado de degradação. De volta à Sabará na quinta-feira, 14 de maio, com a nova “Expedição pelo Velhas 2009”, a mesma equipe se deparou mais uma vez com um rio poluído, penalizado com o despejo de esgoto “in natura” em suas águas e lixo em suas margens. Seis anos se passaram e nada mudou. “De lá para cá Sabará fez quase nada. O rio está muito ruim, cheio de esgoto. Um cheiro insuportável”, declarou Apolo Heringer, idealizador e gestor do projeto Manuelzão. “Não adianta fazer balneário com esgoto dentro do rio. Primeiro trata esgoto, depois vamos trazer embelezamento. Tem que ter boulevard com tratamento de esgoto. Se não, estão botando lixo debaixo do tapete”, afirmou Heringer, numa crítica clara ao Projeto Boulevard.
Enquanto se registram avanços em vários municípios ao longo da bacia, em Sabará a situação do rio continua crítica. Isso porque deságuam no Velhas duas grandes fontes de ‘esgoto’: o Rio Sabará, onde são lançados, sem tratamento, os esgotos dos bairros Pompéu, Vila Michel, Vila Santa Cruz, Mangueiras, entre outros, e o Córrego Malheiros, que também recebe os esgotos não tratados de parte do bairro Santa Inês, em Belo Horizonte, e dos bairros Ana Lúcia, Alvorada, Nações Unidas e General Carneiro. “Muitas fazendas jogam animais mortos e fezes de cavalo, porco e vaca dentro do rio. Fora o material despejado pelas mineradoras. Em General Carneiro a situação é um horror”, lamentou Heringer.
Situações como a descrita, ressaltaram os expedicionários, ameaçam o cumprimento da Meta 2010, cujo compromisso assumido pelo Projeto Manuelzão é “nadar, pescar e navegar” no Rio das Velhas até o próximo ano. Para o gestor do ‘Manuelzão’ cabe à prefeitura reverter essa situação, com a colaboração de todos. “Chega de conversa pela metade. Não é possível Sabará não transformar toda a margem do rio num parque. Não é preciso um boulevard caríssimo. Isso se faz com trilhas e banquinho para as pessoas sentarem. É coisa barata. Eu tenho certeza que o povo de Sabará gostaria de ver o rio limpo, com áreas para fazer caminhada e não esse negócio abandonado que eu estou vendo aqui”, criticou.
O vice-prefeito Argemiro Ramos reconheceu que Sabará tem uma “dívida histórica com o Rio das Velhas”. Segundo ele, a administração passada não fez sua parte, sobretudo, em relação ao Rio Sabará. Mas agora, ressaltou Argemiro, a nova administração do município já está em negociações com a Copasa para sanar o problema.
A chegada da Expedição à Sabará
Quinta-feira, 14 de maio. Já passavam das 16 horas quando os canoístas da “Expedição pelo Velhas 2009- encontro de um povo com sua bacia” chegaram à Sabará. Na praça de esportes, no local exato em que ocorre a confluência do rio Caeté/Sabará com o Velhas, eles foram recebidos com entusiasmo, ao som da Fanfarra do Caíque, por estudantes das escolas pública e particular, comunidade, autoridades locais, representantes do Governo do Estado e equipe do Projeto Manuelzão. Minutos depois chegou a miniexpedição de Cavaleiros do Alto Velhas, que acompanhou à cavalo, pelas margens, todo o trajeto dos canoístas. A descida pelo rio de caíaque durou mais de quatro horas.
Saindo de Honório Bicalho, passando por Raposos e Rio Acima, os aventureiros encontraram no caminho cenários entristecedores, com muito lixo acumulado às margens do rio. “Ficamos muito assustados com a situação do rio para baixo de Honório Bicalho ( em Nova Lima). Encontramos uma ferida aberta no Morro do Galo Velho. Havia no local um antigo lixão que foi fechado há 40 anos. Mas o lixão não foi recuperado de forma adequada e agora ele está caindo no rio. Esse lixão atenta contra a meta 2010”, denunciou Ronald Guerra. Integrante da expedição de 2003, ele observa, no entanto, que, após seis anos, o Projeto Manuelzão registrou avanços. “A qualidade da água tem melhorado. Os peixes estão subindo. A população está mais envolvida. Alguns municípios estão investindo maciçamente em tratamento de esgoto. Mas precisa ser feito muito mais para alcançar a meta”.
Governo do Estado estuda liberação de recursos para tratamento de esgoto
Com a participação da comunidade e de autoridades locais, logo após a chegada da “Expedição pelo Velhas 2009”, na noite do dia 14, a Coordenadora do Projeto Estruturador Meta 2010, Myriam Mousinho, o representante da Copasa Ronaldo Matias, coordenadores do Projeto Manuelzão e o secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, José Carlos Carvalho, se reuniram no Teatro Municipal para debaterem alguns dos principais desafios para o cumprimento da Meta 2010. Entre eles, a falta de tratamento de esgoto que ainda afeta muitos municípios como Sabará. Lembrando que o Rio das Velhas já foi extraordinário, José Carlos afirmou que o Governo de Minas, através da Copasa, já elaborou o projeto para o sistema de esgotamento sanitário de Sabará, que prevê a construção de rede coletora, estações elevatórias e estação de tratamento de esgoto. "A verba para a implantação desse sistema está plenamente garantida pelo Governo de Minas, caso a prefeitura passe a concessão para a Copasa”, garantiu. O secretário ainda ressaltou que “o Governo oferece todo o apoio da Copasa à Prefeitura de Sabará para que o município trate 100% do esgoto coletado".
De acordo com a Secretaria de Meio ambiente de Sabará, as negociações da prefeitura estão paralisadas com a Copasa. A prefeitura está estudando a contrapartida para o município para compensar a rede de esgoto já existente e não elevar muito a taxa de esgoto que será cobrada pela Copasa. A rede hoje é deficitária em termos financeiros para a prefeitura, a população paga a taxa de esgoto através do IPTU e são poucos que pagam. Hoje a prefeitura já atende a 90% da rede de esgoto do município.
A nova secretária de Planejamento de Sabará, Carmem Cristina está estudando todas as opções possíveis para a solução do problema na cidade, inclusive a implantação do SAAE, como existe em Caeté, Itabirito, Pirapora e várias outras cidades de Minas.
Festivelhas
Paralelamente à expedição, foi realizado este ano o Festivelhas. Palestras, apresentações artísticas e folclóricas, oficinas e outras atividades que resgatam a riqueza biocultural da bacia foram realizadas aos finais de semana em Ouro Preto, Santa Luzia, Curvelo, Várzea da Palma e Belo Horizonte.
A “ressurreição” do Rio das Velhas
Iniciada em 8 de maio, em Ouro Preto, onde nasce o rio, a “Expedição pelo Velhas 2009” chega ao final amanhã, dia 6 de junho, em Belo Horizonte, com uma vasta programação artística e cultural, após ter percorrido 804 quilômetros e passado em 51 municípios englobados pela bacia do Velhas. Depois de quase um mês de viagens de caiaque, palestras, oficinas culturais e muitos debates, o idealizador do Projeto Manuelzão, Apolo Heringer atribui à expedição um saldo positivo, apesar de ter encontrado pelo caminho grandes mazelas que ainda ameaçam o cumprimento da Meta 2010 “nadar, pescar e navegar no Rio das Velhas”. Entre as mazelas, a pior e mais persistente continua sendo a falta de tratamento de esgoto.
Outra mazela preocupante, segundo Apolo, foi encontrada na região metropolitana de Belo Horizonte. “Inúmeras indústrias estão jogando seu esgoto no rio. Pessoas ricas, que tem muito dinheiro, mas nenhuma sensibilidade com a questão ambiental. Por que a lei não vale também para elas?”, questiona.
Mas a equipe do Manuelzão teve boas surpresas. A que deixou Apolo mais satisfeito foi ver a volta do peixe, em trechos do rio próximos a Curvelo e constatar também a melhora da qualidade da água em Pirapama. “Nas regiões do baixo e médio Velhas a Meta 2010 já é vitoriosa”, comemora. E até o próximo ano, diz Apolo, a confiança é grande no cumprimento total da meta. “Temos fé no que nós chamamos de ressurreição do Rio das Velhas, que está levando ao milagre da multiplicação”.
O que Apolo pede é que as indústrias que estão jogando esgoto no rio cumpram a sua parte e os municípios que foram denunciados com maior foco de esgoto ao longo do Rio das Velhas resolvam os seus problemas. “Precisamos salvar esse rio, ter entusiasmo, plantar árvores, flores e melhorar o aspecto das margens. Todo mundo tem que colocar o dedo na ferida para buscar solução. Os prefeitos, os vereadores têm que ter compromisso com esse rio”.
A terceira margem do rio
A Secretaria de Estado de Esportes e da Juventude de Minas Gerais, em parceria com a ONG Leão, criou o projeto “A Terceira Margem do Rio”, com o objetivo de promover a utilização racional dos recursos naturais e contribuir para a construção de sociedades sustentáveis. O projeto prevê, para este primeiro ano de trabalho, a capacitação de 500 jovens, entre 15 e 29 anos, dos municípios da Bacia do Alto Rio das Velhas- Belo Horizonte, Contagem, Caeté, Nova Lima, Raposos, Rio Acima, Sabará, Santa Luzia, Itabirito e Ouro Preto. Para o projeto foi assinado convênio em 24 de abril no valor de R$23.936,95. A prestação de contas será divulgada pela ONG Leão.
Contato: ONG Leão/ Chácara do Lessa Fonte: Folha de Sabará
3671-2282.